Quando as lágrimas não pedem licença
Às vezes, criar é chorar de pé — uma forma secreta de continuar quando tudo quer parar.
Mesmo em lágrimas, a arte respira.
Há dias em que a alma decide chorar antes de eu perceber porquê.
As lágrimas chegam sem aviso,
sem nome,
sem explicação que caiba em palavras.
São rios que descem do cansaço,
da ausência de retorno,
do peso de criar num mundo que nem sempre escuta.
E eu deixo.
Deixo que lavem o que a coragem já não alcança,
que desfaçam o nó que o silêncio aperta.
Porque talvez chorar também seja continuar —
uma forma secreta de resistir
quando tudo em mim quer desistir.
Amanhã talvez volte a erguer-me.
Não por força,
mas por fidelidade a algo em mim
que insiste em existir.
Mesmo cansado.
Mesmo sem aplausos.
Mesmo em lágrimas.
👉 Moral artística da novela: criar é, às vezes, chorar de pé.
Quando a pintura pede silêncio
Quando a pintura pede silêncio, o gesto aprende a ouvir antes de falar.
O silêncio também tem cor.
“Há um instante antes de cada gesto — e é aí que a pintura respira.” — HMad
Há dias em que o ateliê pede silêncio.
Não aquele silêncio confortável, mas o outro — o que pesa, o que te obriga a parar.
O ruído da cidade fica lá fora, e até os pincéis parecem esperar por algo que não sabes nomear.
Abres um tubo de tinta, mas não é a cor que procuras — é o ar entre as cores.
A pintura, às vezes, pede pausa.
Quer tempo para ouvir o que ainda não disseste.
E se insistes em apressar o gesto, ela cala-se.
Há uma humildade em aceitar esse silêncio.
Porque, no fundo, é nele que a obra se forma — antes de existir, antes de ser tua.
👉 Conclusão de café: o silêncio também é uma ferramenta — só não vem no estojo de pincéis.
Entre silêncio e pigmento
Um regresso breve: o ateliê falou mais alto e o silêncio serviu para criar.
Depois do barulho, fica o silêncio do ateliê.
“Há momentos em que o silêncio é a única forma de trabalhar.” — HMad
Já há algum tempo que não escrevia por aqui. Mea culpa.
Mas às vezes o ateliê fala mais alto — e o blog, coitado, tem de esperar a sua vez na fila.
O trabalho para as exposições acabou por se multiplicar: uma em novembro, outra em dezembro.
Duas frentes, dois ritmos, e o mesmo par de mãos a tentar dar conta do recado.
Entre telas, cor e café frio, o tempo simplesmente evaporou-se.
Mas é bom sinal: significa que a matéria ganhou vida, que o silêncio serviu para criar.
👉 Conclusão de café: não estive ausente — estive ocupado a preparar o barulho certo.
Antes da primeira pincelada
A pintura não começa na tela, mas no silêncio que prepara o espaço para que a obra aconteça.
Silêncio antes da criação.
“Não é o pintor que escolhe o quadro, é o quadro que escolhe o pintor.” — Georges Braque
Muita gente pensa que a pintura começa no instante em que o pincel toca a tela. Como se fosse magia imediata: cor → tela → obra.
Mas para mim, começa muito antes. No silêncio. No vazio. Naquele espaço invisível onde a obra decide se quer nascer.
O que vem antes
Cada série pede a sua própria lógica. Já vi telas transformarem-se em fragmentos de memória, em corpos a dançar, em territórios por explorar. Nunca repito o caminho. Cada exposição obriga-me a desaprender e a inventar uma nova forma de pensar.
É aí que mora o risco: entrar numa floresta que nunca percorri, sem mapa, sem garantia de saída. E, claro, com a esperança teimosa de que no fim haja luz.
Ordem e caos à mesa
Posso traçar planos, esboçar ideias, encher cadernos de notas. Mas chega a hora da verdade: a cor escolhe o seu destino, o gesto impõe-se, o quadro responde. E eu? Eu sigo.
É nesse fio tenso entre ordem e caos que a obra se revela — e, às vezes, me surpreende mais do que a ti.
O verdadeiro segredo
Talvez a chave não esteja em dominar a pintura. Talvez seja apenas isto: preparar o espaço para que ela aconteça. Como quem abre uma clareira e espera que a luz atravesse.
👉 Conclusão de café: a pintura não começa na tela, mas no espaço que abrimos para que ela exista. E em Dezembro vou abrir esse espaço contigo.